sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015
Caliandra
domingo, 17 de março de 2013
Nota de agradecimento
sábado, 15 de dezembro de 2012
De Pães e Nenhuma Letra
Não ando escrevendo. Nem pouco, nem nada. Agora entendo que meu escrever constante de tempos passados pode ter sido, mais que mistérios do profundo da alma, coisa simples de mãos inquietas. Escrever também é a textura do papel e o jeito com que a tinta corre por ele. Deve correr fácil e abundante, deve manchar meus dedos, unhas até. Unhas, aliás, que sempre tive curtas. Porque cresciam lentas e frágeis, sim, mas também porque quando um pouco mais longas me atrapalhavam a sentir a pequenez das formigas de açúcar, perscrutar a geografia das pitangas. Muito com os dedos eu enxergava o mundo: fazia dormir as dormideiras, arrancava também as casquinhas da goiabeira minutos sem fim. Conversava com sulcos e saliências. O nariz de minha mãe, pequeno e delicado. O queixo redondo e as linhas do sorriso, um pouco mais profundas a cada ano. Entendi com os dedos que mamãe envelhecia, mais que com os olhos. Também assim entendi a turgidez de fruta de estação de meu corpo púbere. O espelho era uma confirmação plana, fotográfica. A verdade-matéria me turvava a vista, curvilínea e sumarenta.
quinta-feira, 21 de junho de 2012
Etimologia
sábado, 10 de dezembro de 2011
Tirésias

Não podiam se entender. Sentia que havia dentro dela uma solidão que ele nunca conseguiria tocar, por mais que ela quisesse deixá-lo. Ele, que sabia de tantas coisas, tinha as mãos grandes e curiosas demais para descobertas delicadas. Os dedos viviam buscando, tudo ao seu toque se tornava objeto de detalhadíssimas e pegajosas inspeções. Ouvia coisas ainda não-ditas, sabia que amanhã iria chover somente pelo cheiro que tinha o ar quando a noite atingia o seu mais escuro. Da mesma maneira, conseguia sentir o odor de qualquer descrença. Media a respiração dela, adivinhava quando se acendia qualquer centelha de dúvida. Antecipava-se a qualquer palavra, declarava com voz maleável:
“Mas é certo que te quero. Como é vermelha esta maçã, querida.”
Ele apalpava a fruta de maneira exagerada, as pontas dos dedos brancas com a intensidade da pressão. Ele conhecia, sobre a pele, a textura da cor vermelha. Ela, por sua vez, olhava a fruta com as feições de quem tenta resolver mistérios. Desviou os olhos e suspirou, vencida, a expressão agora inescrutável. Em momentos como esse, ele lhe tomava a mão entre as suas. Ele sabia que o tato sempre os salvava.
Ele, que sabia de tantas coisas. Como o fato de ela gostar tanto do outono pela abundância do amarelo. Para ela, essa era a verdadeira cor das árvores. Enquanto caminhavam, coletava com cuidado e sofreguidão o amarelo nas calçadas para conservá-lo entre páginas. Ele, divertido, sorria do gesto.
No verão, porém, ela não entendia aquela tonalidade acinzentada das árvores. Nunca viu um número verde dentro de um círculo vermelho. Nunca, na verdade, havia visto uma maçã.
Disso, ele não sabia.
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Texto publicado na edição de 5º aniversário da revista Cachoeiro Cult.
Foto por Kami McKeon
quarta-feira, 2 de março de 2011
Poussière, Lumière (ou da poeira em fachos de luz)

Dizem que Chade é o coração morto da África. Localizado no centro-norte do continente e sem comunicação com o mar, apresenta um clima desoladamente desértico. Lá se falam, oficialmente, o francês e o árabe, e a religião mais praticada é o islã. É o mais populoso e o mais pobre dos países que compunham a antiga África Equatorial Francesa. O que me liga a Chade é apenas o nome Liane Nimrod, a impressão de calor intenso e a cor ocre-alaranjada.
Nimrod nasceu lá, em 1959, apesar de depois ter se mudado para Amiens, na França. É doutor em filosofia, ensaísta, poeta, romancista. Em 2004 lançou um livro de poesias chamado “En Saison ”. E foi assim: naquele três de junho de sol, em Pistóia, na Itália, Nimrod autografou um exemplar para seu amigo brasileiro Carlos, bendizendo as circunstâncias do reencontro deles. Anotou no rodapé da página todos os seus contatos e endereço. Não deixemos de nos ver mais uma vez. Sim, com certeza, obrigado. Sucesso. Obrigado.
Sorrisos, breves apertos de mãos, e seguiu-se a fila de pessoas de rostos ignotos.
Recriei a cena sem nenhum compromisso com a realidade, não estava lá. Nunca estive na Europa, muito menos em Pistóia. Mas tenho a pista, o fruto.
Preciso partir da explicação de que o papel sempre me foi uma espécie de fixação. A textura, o cheiro, as cores. O cheiro, principalmente. O cheiro viciante do papel novo. As livrarias, cujo ar eu respirava como se fosse montanhesco - fundos, longos tragos. Aquelas lombadas coloridas e brilhantes, imaculadas. Tão bom. Livro era assunto que me dava muito ciúme. Manias de encapar com plástico transparente, colar etiquetas. Foi longo o processo que me levou ao saudável desprendimento pra lograr ser bem sucedida no exercício de emprestar. A data de devolução de um livro precisa ser um mistério insolúvel.
Longo processo. Que me levou a perder os cuidados em virar páginas e o medo de amassar as capas dentro das bolsas, e a amar as máculas que deixam a leitura. Passei a gostar indecentemente delas, dobrar orelhas, grifar trechos que me faziam morrer de tanto viver naquele momento exato. Iluminações. Subverti-me até chegar aos sebos.
Ah, os sebos. O ar que se respira neles é bem diferente do das livrarias. É mais denso e passa áspero pelas narinas nas primeiras vezes. Pode ser que seja a poeira, os ácaros, os ocasionais fungos. Prefiro chamar de história, poeira num facho de luz, revoluteando com o susto da descoberta. Pega-se nas mãos um mundo que já foi vivido no mínimo uma vez antes, todos os vestígios dispostos entre as páginas, nas manchas da capa, espremidos entre as entrelinhas da própria história exposta em tinta de gráfica: dedicatórias, trechos sublinhados, observações, flores, fotos esquecidas, bilhetes antigos, Chade, Amiens, Pistóia, Nimrod e Carlos todos quietos no espaço concebível entre dois outros livros de uma estante abarrotada de livros em Francês. Ao lado desses, dezenas de outros. Centenas de outros acima, abaixo, atravessados em qualquer folga de espaço. Atravessados no tempo, todos os outros milhões de dias e sentimentos dormentes, esperando.
Se andar melhorando demais em desprendimentos, um dia subverto-me ao ponto da perdição. Ponho meus dias e sentimentos pra esperar em janelas, bancos de praça, galhos de árvore. Feito mulheres assunteiras, pássaros. Um dia, em outro país, eu deixo Nimrod esperando num assento de ônibus e saio pensando em Carlos.
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segunda-feira, 2 de agosto de 2010
Breve descrição para uma nova anatomia da ausência.

Mais que de carne, osso, veias, unhas, sexo
Sou feita de ausência
Ausência pontuda, calcária
Minha extensão toda negros espinhos rompendo a pele
Vindos dos debaixos da alma.
Não há calma, sempre taquicardia
Nunca é dia, ninguém se aproxima
Do breu, da noite que me tornei.
Me arrasto no movimento quase intangível de mil perninhas
Sobre o chão liso demais das faltas mais fundas.
Dentro da minha noite aguda todos dormem pra sempre
Mudam de posição, sofrem seus espasmos noturnos
Sonham descaradamente
Diante de meus olhos insones
Diante da minha fome
Da minha estranha arquitetura de agulhas escuras
Veneno, inflamação
Chamas, incêndio, sirenes
Enxame de abelhas, canteiro de obras
Escombros
Uma parede emassada ali
Muitos pregos. Um quadro guerniquesco
Mel escorrendo grosso pelo pé direito
Pelo lado de dentro.
Por fora só esse silêncio.
quarta-feira, 19 de maio de 2010
Entre os Versos e o Capitão

Antes de chegar a Isla Negra, eu já sabia: não estava indo ao encontro de uma ilha. Cheguei a um povoado bem ancorado à terra, com suas ruazinhas e sua plenitude feita de sol enquanto em Valparaíso, naquele mesmo dia, havia frio e mariscal. Vi que as areias que cercam o mar de Isla tampouco são negras. São infinitos grãozinhos cor-de-trigo, de uma aspereza gentil a solas de pés. Sobre essa mesma areia pessoas e grandes pedras – essas sim, escuras – dividiam o espaço enquanto contemplavam o azul do pacífico a poucos passos. A impossíveis poucos passos, para algumas das guardiãs estáticas e sombrias que as ondas não alcançavam com seu estrondo e sua espuma. Assim como aquelas grandes pedras mansas, também não cumpri os poucos passos em direção ao mar. Era tardinha, o sol já estava em ângulo oblíquo no céu limpo de nuvens, enegrecendo a silhueta das pessoas que se punham sobre as rochas mais à frente, tornando-as também em estátuas centenárias no meu momento onírico.
Percebi que eu só poderia fazer aquela visita sozinha, ou com quem entendesse. Felizmente me enquadrei na segunda alternativa: éramos três sentados sob o sol já brando, sorrisos enlevados, com o motivo principal da viagem esperando às nossas costas: observadora, debruçada sobre o mar, a que dizem ser a mais impressionante das casas de Neruda. Estava ali a testemunha de minha mudez, de meu amor e desconcerto. Abriu suas portas para nós em meio a uma brisa já gélida, para que nos inundasse um calor cheirando a madeira e pedra, além de um cheiro que não poderia explicar, mas que me tocou mais que todos os nomeáveis. Era o cheiro das memórias despertadas por todos os objetos que o poeta colecionava – as carrancas de proa, os diablillos mexicanos, os garrafões dispostos ao longo das janelas de vidro, os caracóis de todos os tamanhos e proveniências – expostos em uma sala azul que Neruda nunca conseguiu terminar. Também havia o cheiro da espera de uma mesa permanentemente posta para amigos que não viriam mais, mas que ali estavam imortalizados nas diversas fotos coladas nas paredes (entre eles Vinícius de Moraes e Jorge Amado). Enquanto cruzávamos os corredores e cômodos que se assemelhavam a camarotes de navio, uma mulher nos dava em um espanhol suave suas explicações mais que bem pronunciadas, numa calma que não condizia em nada à minha emoção em ouvir sobre como a escrivaninha posicionada sob uma janela havia sido na verdade uma porta que chegou até ali com o acaso e com as ondas do mar; sobre Maria Celeste, a carranca que vertia lágrimas no inverno; ou sobre o cavalo que havia sido presenteado com caudas por três amigos do poeta, que lhe pregou todas e o taxou de “o cavalo mais feliz do mundo”, por possuir três caudas. Tudo isso tinha o cheiro que ainda posso evocar.
No andar de cima, o quarto de Neruda e Matilde se abria ao mar através de amplos janelões de vidro que iam do teto ao chão, de um lado a outro do cômodo, servindo-lhes uma vista opressoramente bela do mar. Caso estivessem ali deitados, naquele momento, teriam o sol a ponto de se pôr aos seus pés, como eu imaginava que havia ocorrido incontáveis vezes. De certo modo nesse lugar ambos ainda repousam – ao ar livre, num promontório que recebe diariamente o vento úmido do pacífico. Deixei que meu olhar se desviasse das letras e datas para uma pequena menina que brincava nos degraus do mausoléu. Senti que o espírito do poeta e seu amor por Matilde, por seu país e por todas as coisas que designam os cacos indispensáveis à integridade de qualquer alma, se espraiavam com leveza sobre tudo ali, iam e vinham se espiralando no vento, entre os cabelos das pessoas. Estávamos todos um tanto comovidos e chascones.
Ao final, percebi que havia passado grande parte do tempo calada durante e depois da visita. Minha amiga chilena me dirigia um olhar cúmplice de quem entendia, e de quem, mesmo depois de haver estado ali já algumas vezes, tinha a mesma sensação que eu. Caminhamos os três - eu, ela e seu filho - até os fundos da casa, para assistir a como o sol mais uma vez se punha aos pés do eterno marinheiro de terra firme. E o brindamos com taças de silêncio emocionado. Salud.
(texto publicado na edição de abril da revista Cachoeiro Cult. Foto por Cristina Briceño)
domingo, 21 de março de 2010
Subitamente
Todas as manhãs, sentava-se em frente ao espelho com a expressão impassível, a atitude quase estóica. Levava as mãos à cabeça e com movimentos treinados dividia os fios longos e escuros entre os dedos finos. Logo começava a tecer uma trança que se enredava desde o alto da cabeça até o meio de suas costas. Fazia tudo em silêncio. Acostumara-se ao silêncio, àquela indiferença mansa. A solidão de nascença lhe ensinara a não fazer muitas perguntas, a não divagar demais sobre si mesma aos pés de ouvidos de terceiros. Depois de um tempo isso parecia vital. Fatigava-lhe fazer relatos, era uma dor quase física contrariar a vontade de ficar calada. Guardava para si pequenos episódios insólitos, íntimas iluminações momentâneas.
Gostava disso, desse egoísmo quase branco de não contar. Não contava e ponto. Tecia diálogos intrincadíssimos dentro de si. Tinha milhares de segredos dos mais inócuos. Ninguém os sabia. Ainda assim, boa ouvinte que era, colecionava confissões alheias que sequer desejava com tanto ardor saber, e o fazia apenas pela satisfação de desafogar um amigo. Não era difícil, afinal, que eles confiassem em seu silêncio. O que não percebiam era que esse silêncio vinha mais do vislumbre do cansaço em usar sua própria voz do que do altruístico esforço de manter um segredo a salvo. Feliz, falava cada vez menos, entre conversas curtas ou monossilábicas. Repudiava a curiosidade alheia e não entendia o propósito do saber gratuito sobre a vida dos outros.
Mas amava, real e profundamente. Só que era um amor já tão conhecido seu que não sentia ser preciso esforço para mantê-lo. O amor com que os pais lhe ungiram, o amor de amizades desveladas. Não conhecia ainda o amor escorregadio, aquele que exige, que queima, que pede, aos gritos, por dentro. Então, logo vieram os homens e os nós. Os mesmos nós que ela havia feito pra se fechar confortavelmente em si mesma e que agora o hábito agarrava por cada uma das pontas e apertava forte. O maior e mais sufocante ficava bem ali, na garganta. Era um nó cego, feito de vários que iam se sobrepondo cada vez que reivindicava sua voz aquele tipo de amor que exigia uma doação que ela ainda não conhecia. Estendeu as mãos a todos aqueles homens esperando que fosse suficiente aquele seu punhado de silêncio cheio de explicações. Não era.
Assim, passaram-se vidas de perdas e de manhãs em que, metodicamente, trançava suas madeixas com cada vez mais severidade. Até que numa dessas ocasiões, uma voz lhe interrompeu da porta do quarto:
“Que coisa mais triste, Aimê. Trança é coisa entre irmãs.”
Adentrando o cômodo, a amiga de sorriso fácil desfez os nós apertados no topo da cabeça de Aimê, trançando os fios novamente com calma e uma frouxidão delicada, até a extremidade. Pelo espelho, a outra a observava, e, sem saber o que fazer com as mãos, repousou-as sobre o peito.
“Assim está melhor.”
Tão logo Aimê viu seu próprio reflexo, seus olhos arderam, iluminados. Começou a soltar a trança diante da amiga um tanto confusa, sentindo e amando cada gomo desfeito. Fechou os olhos e sacudiu os longos cabelos por vários minutos. Caídas dos cachos castanhos, palavras de séculos atapetaram o chão do quarto. Começou a lê-las à amiga maravilhada, na ordem em que as recolhia.
“Orquídeas!”
“Perdão!”
“Subitamente!”
E passou o dia sentada sobre o beiral da janela, berrando as restantes aos transeuntes.
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quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010
Da Solidão como Arte

Há algo de sedutor na literatura latino-americana, capaz de tocar o sangue e o espírito. Talvez seja pelo compartir dessas mesmas terras entre trópicos, da mesma herança histórica. O fato é que a literatura latino-americana, incluso a brasileira, sempre me pareceu estar plena de elementos de identificação imediata e osmótica, dando-me a impressão de que as palavras não me entravam pelos olhos, mas pelas pontas dos dedos, caindo na corrente sanguínea e passando por veias e átrios pra só então chegar ao cérebro, ao centro da razão.
Dentre os brasileiros, chilenos, argentinos, venezuelanos e tantos outros responsáveis por tal façanha encontra-se um colombiano simpaticamente alcunhado Gabo, Gabriel García Márquez, dono de uma obra que abrilhanta toda a existência do chamado “Realismo Mágico”. O estilo de narrativa de García Márquez, que ganhou o prêmio Nobel de Literatura em 1982, é perpassado de elementos fantásticos, frutos de sua própria vivência com incrementos de sua virtuosa imaginação e talento descritivo.
Sua obra-marco é Cem Anos de Solidão, em que podemos acompanhar a curiosa trajetória da família Buendía num povoado fictício chamado Macondo. Este livro, alvo de inúmeros estudos e passivo de um sem-número de interpretações, é repleto de referências bíblicas, da história da América Latina, e referências pessoais do autor, num equilíbrio prodigioso que torna impossível dissociá-las. Nele, elementos místicos são colocados de forma tão natural e sem espanto, como parte inerente da vida dos personagens (feito o sol ou a chuva), que o próprio leitor é levado à impressão de que aparições fantasmagóricas e fios de sangue que cumprem trajetos exatos de subidas e descidas em caráter de prenúncio são acontecimentos corriqueiros ou verossímeis.
O livro é narrado de forma não linear, e compreende um ciclo genealógico pela repetição de destinos dos quais parece impossível escapar. Ao passar das páginas também é preciso lidar com a insistência da repetição de nomes, recurso que o Gabo utiliza não em vão na construção de personagens complexos e interessantes, e que por vezes obriga os leitores mais ansiosos a desenhar a árvore genealógica dos Buendía para não se perderem no emaranhado de Josés Arcádios e Aurelianos que vão nascendo a todo tempo, sob os olhos de matriarca centenária de Úrsula Iguarán.
Enfim, Cem Anos de Solidão é um daqueles livros que se caracterizam como divisores de água, daqueles em que se descobrem novas nuances a cada nova leitura. Acima de tudo, é uma grande ode à solidão... Ou, na mesma proporção, a pura expressão do medo deste que parece ser o maior fantasma da humanidade, explícito nas palavras do cigano Melquíades:
“Havia estado na morte, com efeito, porém havia regressado porque não pôde suportar a solidão”.
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texto publicado na Cachoeiro Cult - Dezembro 2009
segunda-feira, 21 de dezembro de 2009
Lugar de poesia é na balada.
A segunda edição tardou mas veio: Outubro, calor, Café Mourad's, com uma receptividade ímpar por parte dos funcionários e administradores do local e um público bem mais numeroso. O Chuva Fina com suas rendições inspiradas e lindíssimas das músicas de Sérgio Sampaio só embelezou ainda mais o evento.
E repercussão e vontade nos trouxeram até a última edição deste ano, realizada em 11/12/09. Dessa vez quem nos cedeu o espaço foi o Gilson, do Studio 27, e tivemos a honra de inaugurar o Sebo Cineclube e trazer à baila o Poesias de Outubro, projeto do William, que com sua namorada Jackie e a amiga Polly, apresentou poesias autorais musicadas com muita sensibilidade. Nossos queridos músicos e amigos de todas as horas: Lelê, Popov, Flavinha e Léo, também tocaram pra gente suas versões de Chico Buarque e de Roberto Carlos. Luan Volpato ainda compôs o ambiente com sua bela exposição de fotos, "Tramas".
E a poesia sempre lá, claro. No mural, sobre a mesa, em papeizinhos embolados nos bolsos das pessoas. Leituras em grupo em plena sexta-feira à noite, e nem era igreja. Gente compenetrada, e nem era futebol. Ê, meu Cachoeiro de Itapemirim.
Quero deixar aqui meu muito obrigada para os amigos que ajudam a organizar, para os amigos que cedem sua arte, seja música, performance, escritos, quadros ou fotografias, para aqueles que ajudam a divulgar, para os cederam espaço até hoje, pros que sempre comparecem, pros que ainda vão comparecer.
E em especial pro meu amigo Luiz, que é co-organizador dessa bagunça boa, mentor criativo, o cara que faz os cartazes lindos, etc etc. Não teria ido a lugar algum sem a ajuda dele.
Abaixo algumas fotos da espetacular Natássya Carvalho, registros dessa terceira edição:









E Fevereiro tem Verbo IV :)
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Ah, e a despeito do caos e do frio lá de Junho:

:)
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quarta-feira, 2 de dezembro de 2009
III Verbo Intransitivo

Amigos!
Este mês estaremos realizando a terceira edição do Sarau Verbo Intransitivo e a última de 2009! Desta vez o local é o Studio 27, sede do Cineclube Jece Valadão. Aproveitaremos a ocasião para celebrar a boa nova da instalação do Sebo Cineclube, que será inaugurado no dia do sarau. Haverá apresentações musicais, exposição de fotos e, claro, microfone aberto para declamação de textos.
A entrada é franca e todos serão bem-vindos!
abraços,
Milena
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quarta-feira, 4 de novembro de 2009
Das Delicadezas
Alamanda fora do galho, se tiver botão desenganado na haste, ponha em copo de geléia com dois dedos de água. Deixe sobre uma toalha de renda e não fale muito em volta. Quase esqueça. A flor amarronzece, se acanha e a corola cai. É ignorar, que logo o botão sente ímpetos, se espreguiça no silêncio, acaba abre: pétalas. Ternura hasteia suas bandeiras o dia inteiro no enquanto isso das pessoas. Vide borboletas do manacá desempupando, besouros de esterco trabalhando, a arquitetura das sementes de cipó.
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quinta-feira, 29 de outubro de 2009
Ao Léu

aquilo ali, meu bem
nuvem de chuva não é:
é gelo flutuando a uns nove mil metros.
cirro é que vem frente fria
logo-loguinho despendurar lençóis.
na boca dele todas as nuvens têm nome
ele sabe dos dias, dos sóis
até depois de amanhã.
capaz enxergar transparências se desprendendo do chão.
tenta me ensinar tudo.
sorrio minhas ignorâncias, satisfeitíssima:
vejo muito licor de anis derramado
vejo muitos fios de açúcar
chumaços de algodão pra tratar machucado
qualquerzinho, meu ou dele.
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quarta-feira, 21 de outubro de 2009
Primeiro Ensaio
porque você é esse transbordamento
de coragem, de amor
essa aragem, prenúncio
esse clamor
de vontades abertas
ofertas
liquidação de coisas boas
dessas que a gente acha e não acredita
remexe araras, prateleiras,
pronto: precisa.
peço pra embrulhar esses olhos claros
esse desejo perene de alturas
nossas tantas reconhecências
levo tudo na concha das mãos.
(loas, então
às intempéries, aos planetas
aos cometas, às mulheres
loas a essa ou aquela canção.
loas às colheres, de chá ou sopa
loas às roupas, à poeira, às janelas
a tudo mais que entortou nossas paralelas
e nos abençoou nessa interseção)
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foto: postcards from italy, beirute.
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quarta-feira, 14 de outubro de 2009
Notícia

o fogo queimou trezentos barracos.
repórteres anunciam
que incandescências de papelão
levaram as caixas de leite
de Cristina das Dores.
alastramentos alaranjados
labaredas fagocitam, lambem, cospem nada de volta
deixam rastro preto de lesma ácida.
fios delgados de água,
fios delgados de lágrima,
gente se arvorando em milagres.
(câmeras sobem ruelas, alardeam
Beatriz mamando no seio anônimo
da mulher quem nem a conhece.
mas o choro de fome foi sem pedir licença
gotejar os peitos
como tal.
foi milagrear.)
há mais leite no mundo, Dores.
ouça: há.
há leite que brota de gentes
feito nascente, manancial
feito flores.
tem gentes brotadinhas de milagres
de tanto mundo que as perpassa.
dizem, quase tudo é chamas, Dores.
quase tudo passa.
(11/10/09)
segunda-feira, 5 de outubro de 2009
E a última flor persiste...

O poeta madrilenho Pedro Salinas bem definia a língua de um povo como “a fraternidade misteriosa que cria o feito de chamar desde crianças as mesmas coisas com os mesmos nomes”. Pois é exatamente esse sentimento que experimentamos com o documentário “Língua: Vidas em Português”, dirigido por Victor Lopes, um moçambicano com nacionalidade portuguesa e radicado no Brasil há trinta anos. Sua obra passeia pelo Brasil, Portugal, Índia, Moçambique, França e Japão, e enquanto vai captando o cotidiano de pessoas comuns inseridas em contextos sensivelmente díspares, tecendo uma colcha de retalhos cultural de um viço ímpar e incontáveis nuances, vemos onde tudo se afunila em um ponto comum: todos falam português. Vemos, ouvimos e nos inserimos na mesma enorme gama de mais de 200 milhões de pessoas pelo mundo que, em suas particularidades lexicais e diferenças de sotaque, compartilham da herança lingüística da “última flor do Lácio”.
O documentário de Lopes ainda conta com a participação de ilustres como José Saramago, Mia Couto, Martinho da Vila e João Ubaldo Ribeiro, que vão permeando o fluxo da narrativa com suas reflexões sobre a língua Portuguesa em diversos aspectos: a existência ou não de um Português padrão, se suas mudanças implicam em uma involução ou evolução, a necessidade do ser humano de fazer parte de alguma coisa, e como o idioma vem a se inserir nesse processo de pertencimento. Em meio a tudo isso, um vendedor de balas no Rio de Janeiro usa de seu discurso persuasivo dentro de um ônibus lotado, crianças em Moçambique repetem em coro as falas de uma professora que lhes conta sobre o amanhecer e dois jovens lisboeses comentam sobre a vida na capital portuguesa. O tempo todo o Português é matéria viva e personagem onipresente na proliferação de metalinguagens, simplicidades do cotidiano, crenças, aspirações, angústias.
Não há como passar incólume, depois de assistir a esse documentário, pela sensação muito real de que a língua é um organismo que respira, que se molda, que se reinventa a cada dia através de seus falantes – e os une, também, nessa enorme rede invisível e intercontinental com pareceres de fraternidade perene. Como o sol que sempre amanhã aparece outra vez, na voz das crianças moçambicanas.
Milena Paixão
LÍNGUA – VIDAS EM PORTUGUÊS
Brasil \ Portugal – 2003
Direção: Victor Lopes
Duração: 91 minutos
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Esse artigo foi publicado na Folha do Espírito Santo em 24/09/09, por ocasião da exibição do documentário "Língua - Vidas em Português" no Cineclube Jece Valadão. Não é uma tipologia de texto com a qual estou acostumada, mas tenho um carinho especial por esse documentário e aceitei com prazer a empreitada de escrever um texto sobre ele, divulgando a sessão. Aproveito para parabenizar Gilson e Beto pela retomada das sessões de nosso cineclube e convidar a todos que estejam por aqui numa quinta à noite para comparecer ao Studio 27, às 20:30h, para curtir um filminho bom e um papo agradável.
Abraços!
domingo, 20 de setembro de 2009
II Verbo Intransitivo

Depois da primeira edição, no Centro Operário, vamos realizar nosso segundo encontro no Café Mourad's, com a música boa do Chuva Fina (grupo de músicos cachoeirenses que homenageiam Sérgio Sampaio) e microfone aberto para declamações, declarações e revelações ;)
Todos estão convidados, levem seus textos e pandeiros!
Abraços!
Milena
sábado, 19 de setembro de 2009
Rio Revisited

Para Amélia Barretto
De um janeiro longínquo
Rio de cristos, de vincos
Na minha existência
Vê se me explica
Se renda
Em todas as suas facetas
E estreite suas alamedas
Até o alcance da envergadura
De meus braços abertos
Que é pra eu sentir a superfície dura
Desses seus segredos.
Deixe-me ir andando e sentindo
Com atenção de ponta de dedos
De um lado o chapisco
A fuligem, o risco
Do outro as curvas das morenas
Dos arcos da Lapa, o riso
A Urca, o mar de Ipanema
E todas as coisas que se tocam:
A bossa, o samba, os corpos
Com suas bocas e falos
Ventando seus mistérios, seu som
Seu tom - Antônio Carlos.
Rio, é sério:
Você, que é tão grande que não coube
Em só uma canção
Foi se alojando, santo e ébrio
Sem sobras e sem cerimônia
Nas minhas horas
Memórias
Meus foras
E meu coração.
domingo, 23 de agosto de 2009
Noite de Festa



Na noite de 21 de agosto soprava um vento frio que não aplacou de forma alguma o calor humano e a alegria que tomou conta do espaço cultural do Yázigi, aqui em Cachoeiro. Contando com a participação de amigos maravilhosos, artistas de primeira linha, fizemos uma festa linda para lançar o Catar-se e, acima de tudo, celebrar a cultura de nossa cidade, que vem florescendo de um jeito que não víamos há tempos por aqui.
A mim só resta agradecer a todos os presentes - à família de sangue e à família de amigos que estiveram todos lá ao meu lado. Aliás, nunca vi um lugar com tanta gente boa junta! Não teria sido a lindeza de evento que foi se não fosse pelas mãos cheias de zelo de todos vocês.
Por hora, os livros estão comigo e com o Marcelo Grillo, da editora Cachoeiro Cult. Logo deixaremos exemplares em livrarias e outros pontos de venda. Mas para quem quiser adiquiri-los, é só entrar em contato comigo (mizunda@hotmail.com) ou com o Marcelo (marcelloprf@hotmail.com) , que enviaremos os exemplares, com dedicatória.
Ah, e essas fotos foram tiradas pela talentosíssima Natássya Carvalho :)
Abraços, amigos!










