quarta-feira, 2 de março de 2011

Poussière, Lumière (ou da poeira em fachos de luz)




Dizem que Chade é o coração morto da África. Localizado no centro-norte do continente e sem comunicação com o mar, apresenta um clima desoladamente desértico. Lá se falam, oficialmente, o francês e o árabe, e a religião mais praticada é o islã. É o mais populoso e o mais pobre dos países que compunham a antiga África Equatorial Francesa. O que me liga a Chade é apenas o nome Liane Nimrod, a impressão de calor intenso e a cor ocre-alaranjada.

Nimrod nasceu lá, em 1959, apesar de depois ter se mudado para Amiens, na França. É doutor em filosofia, ensaísta, poeta, romancista. Em 2004 lançou um livro de poesias chamado “En Saison ”. E foi assim: naquele três de junho de sol, em Pistóia, na Itália, Nimrod autografou um exemplar para seu amigo brasileiro Carlos, bendizendo as circunstâncias do reencontro deles. Anotou no rodapé da página todos os seus contatos e endereço. Não deixemos de nos ver mais uma vez. Sim, com certeza, obrigado. Sucesso. Obrigado.

Sorrisos, breves apertos de mãos, e seguiu-se a fila de pessoas de rostos ignotos.

Recriei a cena sem nenhum compromisso com a realidade, não estava lá. Nunca estive na Europa, muito menos em Pistóia. Mas tenho a pista, o fruto.

Preciso partir da explicação de que o papel sempre me foi uma espécie de fixação. A textura, o cheiro, as cores. O cheiro, principalmente. O cheiro viciante do papel novo. As livrarias, cujo ar eu respirava como se fosse montanhesco - fundos, longos tragos. Aquelas lombadas coloridas e brilhantes, imaculadas. Tão bom. Livro era assunto que me dava muito ciúme. Manias de encapar com plástico transparente, colar etiquetas. Foi longo o processo que me levou ao saudável desprendimento pra lograr ser bem sucedida no exercício de emprestar. A data de devolução de um livro precisa ser um mistério insolúvel.

Longo processo. Que me levou a perder os cuidados em virar páginas e o medo de amassar as capas dentro das bolsas, e a amar as máculas que deixam a leitura. Passei a gostar indecentemente delas, dobrar orelhas, grifar trechos que me faziam morrer de tanto viver naquele momento exato. Iluminações. Subverti-me até chegar aos sebos.

Ah, os sebos. O ar que se respira neles é bem diferente do das livrarias. É mais denso e passa áspero pelas narinas nas primeiras vezes. Pode ser que seja a poeira, os ácaros, os ocasionais fungos. Prefiro chamar de história, poeira num facho de luz, revoluteando com o susto da descoberta. Pega-se nas mãos um mundo que já foi vivido no mínimo uma vez antes, todos os vestígios dispostos entre as páginas, nas manchas da capa, espremidos entre as entrelinhas da própria história exposta em tinta de gráfica: dedicatórias, trechos sublinhados, observações, flores, fotos esquecidas, bilhetes antigos, Chade, Amiens, Pistóia, Nimrod e Carlos todos quietos no espaço concebível entre dois outros livros de uma estante abarrotada de livros em Francês. Ao lado desses, dezenas de outros. Centenas de outros acima, abaixo, atravessados em qualquer folga de espaço. Atravessados no tempo, todos os outros milhões de dias e sentimentos dormentes, esperando.

Se andar melhorando demais em desprendimentos, um dia subverto-me ao ponto da perdição. Ponho meus dias e sentimentos pra esperar em janelas, bancos de praça, galhos de árvore. Feito mulheres assunteiras, pássaros. Um dia, em outro país, eu deixo Nimrod esperando num assento de ônibus e saio pensando em Carlos.



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11 comentários:

Gabriela Galvão disse...

Ai, amei este texto, Milena. Sabe q eu jah paqerei em sebo, por entre as prateleiras. Crássico!, hauhauh Mas eu nem sabia. Lembrando, eh mto cinematográfico ou cinematografável.
E o cheiro, oui. Prefiro dos novos, confesso. Mas as dedicatórias (tem um saite soh disso, depois um dia eu volto e te digo ao certo) dos d sebo, as observações... D grifos ñ sei se gosto. Tem vez q sim, tem vez q ñ. depende da abertura ou preguiça. Q o grifo jah te dah d bandeja.
Emprestar eu soh empresto se aguentar d ñ ter d volta.
Certo, empolguei.
Beijo!

Flávia Balarini disse...

Os sebos pra mim são puro charme, até acho cheiro uma delícia! às vezes até melhor que o das livrarias. Talvez seja o cheiro da acessibilidade! haha
Beijos de saudades, o texto tá incrível.

M.Maria M. Coutinho disse...

EBA! Voltou!!

Clayton C. disse...

tão tão tão bem escrito

podia passar um dia todo como esse, frio e chuva, lendo.
muito bom!

Ronni disse...

Milena, que texto!
Puxa! Disse muito do que um dia pensei em dizer sobre a arte do desprendimento(para com meus livros) e sobre sebos!
Fiquei maravilhado com o texto.
Vontade de mostrá-lo, como dizem, "pra Deus e o mundo".
Muito, muito bom!
Abraço grande,
Ron
www.ronnianderson.blogspot.com

Anônimo disse...

Amiga, inspiração em pessoa...rs
Em pleno carnaval, resolvi deixar um comentário aqui, viu?...rs
Espero que esteja feliz.
Bjo

Karla Thayse disse...

Encantei-me por aqui...

Texto maravilhoso,
Lindo lugar.

Beijo

Adriana Alves disse...

Que texto lindo, você escreve muito bem.

Gracy Laport disse...

sebos são pura graça, pura embriaguez! os livros tem vida...
bom te ver por aqui de volta, menina Paixão.

Gilmar Morais disse...

Milena,

Há algum tempo já acompanho, com prazer, o seu blog. E é com muita alegria que passo por aqui para agradecer-lhe pela cumplicidade permitida, e claro, em data festiva, convidar você para seguir o Caminhar & Ruminar, que ontem completou o seu primeiro ano de vida.

A festa será maior com você, com a sua presença e amizade que puder emprestar! Tenha certeza, significa muito!

Receba o meu fraternal abraço!

Kamila Zanetti disse...

Uma das melhores coisas que já li na minha vida.

"Livro era assunto que me dava muito ciúme".

Beijos!