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quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Das Delicadezas




Alamanda fora do galho, se tiver botão desenganado na haste, ponha em copo de geléia com dois dedos de água. Deixe sobre uma toalha de renda e não fale muito em volta. Quase esqueça. A flor amarronzece, se acanha e a corola cai. É ignorar, que logo o botão sente ímpetos, se espreguiça no silêncio, acaba abre: pétalas. Ternura hasteia suas bandeiras o dia inteiro no enquanto isso das pessoas. Vide borboletas do manacá desempupando, besouros de esterco trabalhando, a arquitetura das sementes de cipó.


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quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Ao Léu




aquilo ali, meu bem
nuvem de chuva não é:
é gelo flutuando a uns nove mil metros.
cirro é que vem frente fria
logo-loguinho despendurar lençóis.

na boca dele todas as nuvens têm nome
ele sabe dos dias, dos sóis
até depois de amanhã.
capaz enxergar transparências se desprendendo do chão.

tenta me ensinar tudo.

sorrio minhas ignorâncias, satisfeitíssima:
vejo muito licor de anis derramado
vejo muitos fios de açúcar
chumaços de algodão pra tratar machucado
qualquerzinho, meu ou dele.


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quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Primeiro Ensaio




porque você é esse transbordamento
de coragem, de amor
essa aragem, prenúncio
esse clamor
de vontades abertas
ofertas
liquidação de coisas boas
dessas que a gente acha e não acredita
remexe araras, prateleiras,
pronto: precisa.
peço pra embrulhar esses olhos claros
esse desejo perene de alturas
nossas tantas reconhecências
levo tudo na concha das mãos.

(loas, então
às intempéries, aos planetas
aos cometas, às mulheres
loas a essa ou aquela canção.
loas às colheres, de chá ou sopa
loas às roupas, à poeira, às janelas
a tudo mais que entortou nossas paralelas
e nos abençoou nessa interseção)





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foto: postcards from italy, beirute.

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sábado, 19 de setembro de 2009

Rio Revisited



Para Amélia Barretto


Rio
De um janeiro longínquo
Rio de cristos, de vincos
Na minha existência
Vê se me explica
Se renda
Em todas as suas facetas
E estreite suas alamedas
Até o alcance da envergadura
De meus braços abertos
Que é pra eu sentir a superfície dura
Desses seus segredos.
Deixe-me ir andando e sentindo
Com atenção de ponta de dedos
De um lado o chapisco
A fuligem, o risco
Do outro as curvas das morenas
Dos arcos da Lapa, o riso
A Urca, o mar de Ipanema
E todas as coisas que se tocam:
A bossa, o samba, os corpos
Com suas bocas e falos
Ventando seus mistérios, seu som
Seu tom - Antônio Carlos.
Rio, é sério:
Você, que é tão grande que não coube
Em só uma canção
Foi se alojando, santo e ébrio
Sem sobras e sem cerimônia
Nas minhas horas
Memórias
Meus foras
E meu coração.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Felina


Nasci em agosto
E vim leonina nos cabelos revoltos
Nas rimas que me arrematam
Uma no meio, outra no fim.
Posso dizer que nasci assim:
Unhas que crescem muito depressa
Olhos que enxergam de longe por mim
E cheguei na remessa
De sonhos tenros de um rapaz e uma moça
Casa, varanda, filhos, roupas
Quaradas e estendidas no varal.
Nasci com uma pinta na coxa
Cresci com poucas palavras na boca
Etecétera
E tal.

Nasci em agosto
Com as sete vidas que me cabem
E aceito o fardo de bom grado.
Porque nasci em agosto
Mas se precisar nascer de novo
Eu nasço.

sábado, 25 de julho de 2009

Modernista

a Drummond


Tinha a incerteza no meio do caminho.
No meio do caminho, a incerteza.
E, mais pro lado, a pedra.
Tinha a pedra.

Eu vi a incerteza e franzi o nariz de pena:
A incerteza era um bichinho.
E feio, como era feio, meu deus.
E roía, como roía, com uns incisivos
Que queriam crescer pra sempre
Pra além do seu tamanho
E ainda além.

Enquanto fiquei parada olhando, a incerteza roeu tudo o que podia:
Graveto, plástico, guimba, cacos
Até a pedra.
Ainda não satisfeita, ela chegou pra mim
E deu de roer meus sapatos
Roeu até sangrar um dedão.

Mandei-lhe a pedra no traseiro.

Tinha a pedra no meio do caminho.
E no meio do caminho tinha a incerteza.
Nunca me esquecerei desse acontecimento
Na vida de minhas retinas ainda frescas.


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Esse poeminha foi apresentado no Festival de Poesia Falada de Varginha, em junho de 2009, por meus amigos Luiz e Junim. É com muita alegria que divido o vídeo com vocês:



Valeu, meninos!



(tinha que ter uma foto dessa, rs)

terça-feira, 7 de julho de 2009

Amor é Caça-Palavra



a Viviane Mosé


contrário de amor
não é ódio, rancor
não é raiva assassina
chilique, doença
dose de estricnina
nem mesmo indiferença.


contrário de amor
ao menos no meu idioma
eu circulei com vermelho
num dia de chuva:
ROMA.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Sonzinho Bom




Gente :)

O motivo desse post é muito especial. É pra compartilhar duas músicas lindas que amigos meus produziram.

A primeira é "A Um Passarim", letra bonita feita pelo Marcelo Grillo baseada no meu poema homônimo. A melodia base também é dele, e foi trabalhada com muito carinho pelos músicos e cantora (e amigos) Alessandra Biato, Junim D'Paula e Amélia Barreto. A voz primorosa quem empresta é a própria Amelinha.


A segunda é Presente, musicado na íntegra pelo Junim. É um sambinha espirituoso, resposta ao Pingüim de Vinícius de Moraes.

Como não consegui ainda achar um player que funcione por mais de um mês por aqui, vou deixar o link da minha página no Encuca, onde as músicas podem ser ouvidas na íntegra. É só descer um pouco a barra de rolagem e olhar no lado esquerdo. Elas estão lá :)

Quero pontuar aqui todo meu carinho e admiração por esses meus amigos artistas. Obrigada sempre pelo apoio, pelo abraço através de braços e atos.

Seguem abaixo fichas técnicas:

A Um Passarim
Voz - Amélia Barretto
Piano - Marcelo Biato
Violão - Alessandra Biato
Baixo - Fábio Coelho
Programação de bateria - Fábio Coelho

Presente
Voz - João de Paula Junior e Alessandra Biato
Violão - Alessandra Biato
Violino - João de Paula Junior
Chocalho - Alessandra Biato
Moringa - Fábio Coelho

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quinta-feira, 19 de março de 2009

Presente


Bom dia, poeta
Estou, sim, com pressa
Não posso parar
Pra dedo de prosa
Não vê que eu levo
Com muito cuidado
Na asinha esquerda
Uma bela rosa?
Bem sei que esse assunto
Sempre lhe interessa
E talvez lhe rendesse
Um soneto de amor
Mas faça o favor
Não puxe o rabinho
Da minha casaca
Pra me amarrotar
Nem feche o caminho
Que faz diferença
Até um segundinho
Se eu me atrasar
E o meu chapéu jaca
Prum ar mais charmoso
Não amasse com tapas
Poeta teimoso!
Só deixe-me ir indo
Que tenho eira e beira
Que tenho destino
E não posso parar:
Eu tenho pingüinha
Pra ir cortejar
Lá na geladeira
Do Seu Serafim
(taí o endereço)
E ficamos assim:
Procure-me lá
Que até lha apresento
(tão linda e formosa
foi feita pra mim)
Mas só não se engrace
Com fala melosa
Que fico nervoso
E ponho-lhe um fim:
Corto-lhe o papo
Dou-lhe um sopapo
Ou eu não me chamo
Joaquim, o pingüim.

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Essa poesia é uma resposta à poesia/música "O Pingüim", de Vinícius de Moraes, e um presente especial à Nayara, minha querida mocinha mal-humorada.

(e, sim, com todos os tremas cabíveis! rs)

domingo, 15 de março de 2009

Dali aos Seis


A menina de seis anos
Estampada num quadro de Dali
Debaixo de um céu degradê
Sou eu, de fato
Erguendo a pontinha do lençol de água
Que dá de recobrir você.
Vou sondando, visão e tato
Se oculta por baixo da pele translúcida
O Aconcágua
Toda a neve da Rússia
Um álbum de retrato
Um peixe
Um cão dormindo?
Ah, deve ser um domingo
Com fedegoso plantado no meio
Amarelo-florindo
Ou pode ser o labirinto
De um minotauro faminto
Esperando,
Sorrindo.

Mas menina de seis anos
Não fica no limbo
Se cansa de mistério exacerbado
Tem outras coisas no mundo por fazer
Além de erguer o tapete assoberbado
Que dá de recobrir você.
Então, mais por fastio que por medo
Ela solta de vez aquela ponta de mar
Se apruma, sem cerimônia
E se afasta, como lhe convém
Em busca de outros brinquedos
Pois sente na carne tenra
Que ainda é dia
E ainda é cedo.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Sulla Rabbia




Lista delle cose che mi fanno rabbia:

Sgranare un dito nella finestra

Bruciare la mano nella pentola

Avere nella gamba una macchia viola

Macchiare la gonna più bella

Vederti insieme a "quella".


Ma l'odio... l'odio, no.

L'odio paralizza, fa la vita diventare un dolor.

L'odio oscura il giudizio.


Già, la rabbia, fa appena ciò:


Raccogliere il dito fra le labbra

Usare pomata invece delle piante

Rimettere gli spessi pantaloni

Provare la ricetta delle nonne

Deviare lo sguardo e proseguire avanti.


E soltanto questo.



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Essa belezura em italiano é uma versão feita pelo Marcelo Grillo, para esse poema aqui.


Ando bem devagar com as atualizações - mais que o de costume, rs. Por uns tempos ainda, vai continuar assim. Mas tem motivo bom: junto à editora Cachoeiro Cult, vou lançar meu primeiro livro este ano! Só tenho a agradecer a essa editora maravilhosa pela acolhida e o apoio que sempre me deram. Renata, Marcelo e Evandro, muito obrigada. Marcelo, um obrigada em especial a você pelo entusiasmo com que tem trabalhado nesse projeto. E Diego, obrigada por estar me ajudando com sua belíssima arte, que sempre admirei :)


Obrigada também a todos que visitam este blog, também são grandes incentivadores. Mas o melhor de tudo foi que me estenderam pontes e abriram portas para seus próprios mundos, o que me enriquece cada dia mais.


A cada um dos meus amigos tão queridos, um obrigada perene :)

domingo, 7 de dezembro de 2008

Re-pouso




Não sei não, mas ultimamente
Quando você me olha fundo e castanhamente
E quando me beija lento nos entrementes
De um abraço apertado
Dedos enlaçados
Carinho sussurrado,
Eu me inundo até as bordas de um algo
Que vivo lhe contando através de silêncios:
Um querer forte de ternuras
De você ser livre
Mas uma liberdade boa
Feito andar na praia sozinho
E sentir os ombros quentes de um sol ainda brando
Ainda amarelo-clarinho
Bocejando.
Um querer assim de você ser bom
De você exercer sempre essa gentileza
Que lhe existe aos montes, em tudo o que é tom
No de seu olho, de sua pele, de sua voz
E no branco do seu sorriso bonito.
O querer último
Declarado e infinito
É o meu bem-querer mesmo
De te querer tanto e sempre bem
Só pra prolongar essa gargalhada
Só pra você respirar maciozinho
Esses respiros bons da madrugada
Quando o sono é mais puro e pleno.

Porque você é feito passarinho
De asa crescida pro vento, o sereno
Que eu quero que voe alto, viva, ouse
Mas que depois pegue de novo o caminho de mim
E se achegue, mansinho, e descanse:
Re-pouse.


(02/12/08)

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Alado



Segue correndo, moleque
Corre ligeiro, te apresse
Que a vida se pega na unha, moleque
Que a vida não exige breque
De menino assim, feito tu
De alma simples, pés nus
E corpo magrinho
Maciço.
Então, sebo nos cambitos
Voa, isso!
Que asfalto queima, areia ferve
Mas teu pé tem junta de liga leve
e quase não toca o chão inerte:
plana baixinho sem topar espinho
pedra pontuda, caco de vidro
desilusão e tristeza.
Ê, moleque, que proeza!
que beleza esse teu pé de foguete
de asa de beija-flor, pé-de-vento
mudando paisagem em dois tempos:
Bagunçando com gosto as beirinhas da praia
Ventania da boa pra levantar saia
E poeira embaçando a visão da menina
Que nem chega a ver quem some na esquina
E nem atina
Que tinha asas nos pés que passaram zunindo
E que dentro do moleque todo dia é domingo
Cheio de importâncias por fazer:
Comer a vida no miolo da goiaba catada
Empinar vida de papel-seda
O mais alto que dê.


Noite alta já, moleque se deita
Guarda as asinhas de pé
numa garrafa com rolha
e sorri porque vai ter amanhã
(arvorinha cheia de escolhas)
e o cheiro conhecido
de domingo novo
verde em folha.

domingo, 19 de outubro de 2008

Arrupio

Gustav Klimt - Water Snakes II


Vem vindo vento
Rebentação
De mar sedento
Por lamber areia
Por beijar o chão
Vem vindo rio
Leito e afluentes
Em tempo bom de cheia
Caudaloso, rente
Até poder mais não
E transbordar
Invadir aldeias
Apagar candeias
Cobrir ribeirão:

Arrupio
Exército ingênuo de pêlos
Essa mini-horda de fios
Perdidos no afã
Erguendo-se, festeiros
Ao som da flauta de Pã.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Anita Poesia



Anita Poesia,
Nascida mirradinha a esmo
Com sobrenome esse mesmo
E a desalegria de virar piada
De Anita Rima
Anita Prosa
Anita Palavra-Cruzada,
Agora virou moça feita
Contornada
Cintura bem marcada
Boa seguidora de receita
Boa arrumadeira de casa.
Mas seu prazer mais despudorado,
Aquele mais incontido,
É se perder nas eternas provações
Daquela sua dúzia de vestidos:
Seu ritual pagão comprido
De agradecer de manhãzinha.
E se, enfim, decide que chega,
Deixa a cama coberta de flores
Decotes, nesgas e fitinhas,
E sai atrás de pão e manteiga,
Descendo a rua, sozinha,
Encimada por azul-azulejo
E ladeada pelos beijos
Dos rapazes da purrinha
E cantoria das avós
(que cantavam bem assim):

Olhe Anita Poesia,
Com seu cheiro de jasmin
Espalhando seu bom-dia
Colorida como só.
E vai muito bem vestida
Num poema de bolinha
Com barra de sianinha
E manguinhas de filó.

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Tereza e a Estante


Os olhos grandes olham, com lascívia
O coração pulsando, muito alerta
Os homens dispostos à sua frente

Fita-os ela, com a boca entreaberta
De crianças olhando pipoca quente
Despejada em saquinhos, fresquinha
Os mesmos olhos brilhantes
Da menina e a pipoca:
É minha!
Tereza e seus possíveis amantes

Ergue uma das mãos, em incerteza
E desliza-lhes os dedos pelos torsos
Vacila, pondera, sobre quem a mereça
Puxa-os para si e toca-lhes os rostos
Um a um os sente, vagarosa
Que essas horas dispensam avareza

(Depois conta ela, fingida,
Essa menina Tereza
Metade cenho franzido,
Diz ela por pura estranheza
Metade sorrisinho torto, metido
De quem não diz, mas tá prosa):

Veio Vinícius, num andar atrevido
Co’umas propostas muito indecorosas
De brigadeiro, purê e Europa

E enquanto Pablo jurava um amor de pureza
Jorge apostava que eu era menina fogosa
Já Carlos era doce nos versos
Homem cheio de sutilezas

Até Gabriel chegar, em polvorosa
E me acusar de, na verdade, ser princesa
De um lugarejo longe, descartado
Dos mapas, dos ventos da rosa,
Repleto de paisagens pitorescas.


Ah, Terezinha, eu entendo
Que assim só com nervos de aço
Entendo tanto que tou vendo
Você saindo de fino
Com todos debaixo do braço
(hein, sacana!)
E sei que está pensando em um
Pra cada dia da semana.

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

segunda-feira, 23 de junho de 2008

Escute, Adélia




“O que vai viver, espera”
Você diz
Eu também guardo um sol ocluso em mim
Guardo, secretas, esperas sem fim
(outras nem tão secretas assim)
Por exemplo, isso bolinando meu nariz
Essa impressão de cheiro
Cheiro de tempero de comida boa
Cheiro de sabonete de bebê em banho quente
Depois de dia cheio
Cheiro bom dele, todo faceiro
Cheiro que penso que sei bem
Mas que se cumpre só pessoalmente
Reconheço-o, porém, como ninguém
Mas só depois da espera.
Ah, Adélia...
Eu espero, muito séria
E me conluio com tudo mais que espera:
Os livros com marcadores na estante
A folha por um triz ao vento, vacilante
A semente doida pra que alguém a plante.
Mas uns dias me visto de laranja berrante
E me posto ali, de saco cheio
Esperando que alguém se levante
Venha correndo da platéia
E acabe logo com essa pilhéria
Com minha cara de caixa de correio.
Pensando bem, Adélia
Esperar pra viver é pra pinto mal chocado
Coitado
De tanto esperar vira omelete
Vira quindim de padaria e claras em neve
E disso aí eu morro de receio.

Então não tiro o meu laranja, fato:
Em matéria de vida e seus janeiros
Não tenho vocação pra feriado
Quero ser dia útil o ano inteiro.










quinta-feira, 29 de maio de 2008

Ode ao olho




Não é por nada, não
É mais porque gosto de rascunhar papel
É porque quando escrevo assim, ao léu
Dá vontade de falar do céu
Dá ganas de contar do breu.
Mas hoje é só esse olho seu
Que, ai meu deus
É de um castanho de desatino
É um olho assim, de menino
De taurino
Com ascendente em leão.
É olho que, quando a luz é certeira
Tem luxos de mudar coloração
E de roubar minha cor, minha ação
Em espantamento de criança
Em rendição de inseto preso em âmbar
Pontinho preto na sua íris caramelada
Imóvel, exposto em pose atrapalhada
A alma entregue à sua salvação.
E seus cílios agora, então?
São todos feitos de matéria-carinho
Curvadinhos
Ponta de asa de passarinho
Flor de dente-de-leão.
Se eu soprar seu olho, menino
Espalho seus cílios no vento?
E o que acontece na hora
Que eles tocarem o chão?
Será que você vai nascendo
À beira do caminho que ando
Pra, seguido, eu ir te encontrando
E poder segurar sua mão?
Ah, me desculpe, menino
Essa divagação sem tamanho
Mas explico esse súbito assanho
Confesso que há, sim, razão:
É que quando eu fecho o olho
(que estranho)
Nem azul nem breu
É castanho
Que tinge o avesso das pálpebras
E me preenche a visão.

sexta-feira, 9 de maio de 2008

(M)ar



Mar
Começa com eme
De molhado
De maravilhoso
De minha-santa-iemanjá
Por propósitos semânticos óbvios.
Tudo fantasia
Explico já:
No fundo é ar
De tez verde, azul, fria
E de alma difícil
Que ninguém aprendeu a respirar.
Ele se sabe essencial, mas se disfarça
Em água não potável, não lavável,
Por vezes nada amável
Pouco afável
Ao surfe dos meninos, aos castelinhos à beira-mar
À mocinha distraída na cadeira listrada retrátil,
Que toma um belo banho, sem esperar.
É medo dele, desse ar indomável
É orgulho mesmo
Vontade de guardar segredo
De ser impermeável
Sem o ser.
É querer se esconder,
De tanto aparecer.