quinta-feira, 24 de julho de 2008

Otoño





Cheguei a Santiago do Chile em época cor de pêssego e terracota, fugindo à tendência turística de estações de esqui, um frio de doer, e possíveis músculos contundidos. Queria o anonimato de uma baixa temporada, em que passaria despercebido entre os transeuntes, me misturando à vida local. Escolhi o Outono. E o que encontrei foi uma cidade coberta de um glamour tão despretensioso, que me causou assim uma comoção muito discreta que ninguém chegou a notar. É que a cidade me pareceu uma São Paulo muito comum, com seus arranha-céus e trânsito caótico. Mas os parques, ah, os parques. Enquanto que à noite eu me deleitava com a refinada gastronomia santiaguina, com seus picorocos e salmões a ótimos preços, durante o dia meu tempo era dedicado a conhecer os parques espalhados por diversos pontos da cidade, realçando a estação como belas moças de vestidos acinturados de longas saias, colo moreno e perfume amadeirado.

Pois em um desses dias levantei-me bem cedo pra encontrar-me com minha favorita. Era domingo de manhã e eu caminhava pelo Parque Florestal, o El Diário pendendo de minha mão direita, enquanto um copo de café fumegava entre os dedos da outra mão. Que rico desayuno! – treinei, mentalmente, meu espanhol. Normalmente, aos domingos, gostava de misturar as notícias ao café como quem molha nele o pão com manteiga, ou adiciona torrões de açúcar. Ao fim da xícara – ou do caderno – sentia-me estranhamente saciado.

Com o tapete de folhas secas estalando sob meus pés, comecei a espiar as manchetes.



Bolsa bajó 1,14% y puso fin a racha de alzas

Um gole de café-café.



Velasco pidió actuar con prudencia frente a complejo escenario...


Mais um gole. E acabei fechando o periódico, aborrecido. Ainda era muito cedo e o silêncio pungente demais para leituras de jornal. O lugar era muito amplo, as folhas estalavam aqui e ali, e de repente me senti companhia maçante àquela moça esbelta de pele acobreada. Pouquíssimo galante. Decidi dedicar meu café à canela e ao caramelo dela, e fiquei tendo pensamentos de que espécie de gatilho do tempo amarelece as folhas e as leva todas ao chão. E chuva de outono, que parece chiar como água em lâmina de aço quente? Outono pra mim ganhou conotações de freio, fim e consciência, e aquela visão de folhas aos montes no chão de repente me caiu como confete em dia derradeiro de carnaval, naquela muito minha manhã vazia.

Freio, fim e consciência.

Quem conta a passagem de tempo em primaveras nada entende de uvas carmenére e amor. Meu coração são cinqüenta outonos muito bem sofridos, obrigado. E ele pulsa amarelo como o do poeta, de tanto no responder.










(para Cris. E a manhã é essa)


7 comentários:

Marcelo Grillo disse...

Cara Milena, desculpe a pergunta: foste tu mesma a escrever essa crônica???

Fernanda Barata disse...

Belo, belo texto! Adorei a forma como você descreveu as cores e o café da manhã. Também gostei do eu-lírico masculino - muy simpatico.
Parabéns!

Marcelo Grillo disse...

Fico aqui imaginando que escreveste isso sem ter estado lá. Daí minha surpresa e encanto. É perfeito. Tão perfeito que podias descrever, em todas as cores, para nós, pobres mortais, como é o paraíso...

Ronni Anderson disse...

Muito bom!!! Parabéns! Quase minha escritora preferida... hihi... Escreve um livro, escreve um livro! (Torcida Geral!) \o/
Nossa, parabéns, mesmo!
O texto se encaixou, pelo menos na minha mente e correndo o risco de ser taxado de tolo, em uma música que conheço... Destoando um pouco do espanhol, a música é em inglês...
Um pedacim: ... In the autumn on the ground between the traffic and the ordinary sounds. I am thinking signs and seasons while a north wind blows through...
[Love is waiting - Brooke Fraser]

No mais, continue nos presenteando com sua bela escrita!

Renata Mofatti disse...

"gostava de misturar as notícias ao café como quem molha nele o pão com manteiga, ou adiciona torrões de açúcar. Ao fim da xícara – ou do caderno – sentia-me estranhamente saciado." Dio Santo mas isso é perfeito demais da conta... Va bene! Também faço parte da torcida geral: escreve um livro, escreve!!! Por isso também és minha escritora "quase" preferida!!!
Amanhã, na padaria, mesmo sem ser outono, molharei o sonho no café com leite e misturarei a sua página da Revista Cult para ver que poesia isso irá gerar! rsrsrsrs

Bjks!

c. disse...

volta, sim, moça! volta quando quiser. eu volto aqui, porque faz bem o desenho da tua escrita, assim como a paleta de cores escolhida para preenchê-la ^^

um xêro

blogava disse...

parabéns moça...
ótimo texto, como sempre cada vez melhor, realmente ao descrever o ambiente e tudo o mais, a senhorita consegue nos transportar!
bjos