
o fogo queimou trezentos barracos.
repórteres anunciam
que incandescências de papelão
levaram as caixas de leite
de Cristina das Dores.
alastramentos alaranjados
labaredas fagocitam, lambem, cospem nada de volta
deixam rastro preto de lesma ácida.
fios delgados de água,
fios delgados de lágrima,
gente se arvorando em milagres.
(câmeras sobem ruelas, alardeam
Beatriz mamando no seio anônimo
da mulher quem nem a conhece.
mas o choro de fome foi sem pedir licença
gotejar os peitos
como tal.
foi milagrear.)
há mais leite no mundo, Dores.
ouça: há.
há leite que brota de gentes
feito nascente, manancial
feito flores.
tem gentes brotadinhas de milagres
de tanto mundo que as perpassa.
dizem, quase tudo é chamas, Dores.
quase tudo passa.
(11/10/09)
5 comentários:
Que anarquia é essa que nos consome aos pouquinhos e que nos faz gente, ente, frente, condescendente, latente... É da força humana que observamos a decência em tempos indecentes. É da paixão que temos que encontramos coragem e força pra ler poesias como essa, que nos toca, atinge-nos e faz perceber que a anarquia existe.
ora, ora... bem vinda à poesia social. e estreaste muito bem. bj
e quase tudo assa
A poesia dispersando as dores das tragédias cotidianas,belíssimo texto!
Beijos.
Muito sensível. Fez a tragédia soar bela. É um caminho perigoso, transformar o feio em belo. Cuidado...
Postar um comentário