sábado, 19 de setembro de 2009

Rio Revisited



Para Amélia Barretto


Rio
De um janeiro longínquo
Rio de cristos, de vincos
Na minha existência
Vê se me explica
Se renda
Em todas as suas facetas
E estreite suas alamedas
Até o alcance da envergadura
De meus braços abertos
Que é pra eu sentir a superfície dura
Desses seus segredos.
Deixe-me ir andando e sentindo
Com atenção de ponta de dedos
De um lado o chapisco
A fuligem, o risco
Do outro as curvas das morenas
Dos arcos da Lapa, o riso
A Urca, o mar de Ipanema
E todas as coisas que se tocam:
A bossa, o samba, os corpos
Com suas bocas e falos
Ventando seus mistérios, seu som
Seu tom - Antônio Carlos.
Rio, é sério:
Você, que é tão grande que não coube
Em só uma canção
Foi se alojando, santo e ébrio
Sem sobras e sem cerimônia
Nas minhas horas
Memórias
Meus foras
E meu coração.

domingo, 23 de agosto de 2009

Noite de Festa








Na noite de 21 de agosto soprava um vento frio que não aplacou de forma alguma o calor humano e a alegria que tomou conta do espaço cultural do Yázigi, aqui em Cachoeiro. Contando com a participação de amigos maravilhosos, artistas de primeira linha, fizemos uma festa linda para lançar o Catar-se e, acima de tudo, celebrar a cultura de nossa cidade, que vem florescendo de um jeito que não víamos há tempos por aqui.

















A mim só resta agradecer a todos os presentes - à família de sangue e à família de amigos que estiveram todos lá ao meu lado. Aliás, nunca vi um lugar com tanta gente boa junta! Não teria sido a lindeza de evento que foi se não fosse pelas mãos cheias de zelo de todos vocês.

Por hora, os livros estão comigo e com o Marcelo Grillo, da editora Cachoeiro Cult. Logo deixaremos exemplares em livrarias e outros pontos de venda. Mas para quem quiser adiquiri-los, é só entrar em contato comigo (mizunda@hotmail.com) ou com o Marcelo (marcelloprf@hotmail.com) , que enviaremos os exemplares, com dedicatória.

Ah, e essas fotos foram tiradas pela talentosíssima Natássya Carvalho :)

Abraços, amigos!



terça-feira, 11 de agosto de 2009

Felina


Nasci em agosto
E vim leonina nos cabelos revoltos
Nas rimas que me arrematam
Uma no meio, outra no fim.
Posso dizer que nasci assim:
Unhas que crescem muito depressa
Olhos que enxergam de longe por mim
E cheguei na remessa
De sonhos tenros de um rapaz e uma moça
Casa, varanda, filhos, roupas
Quaradas e estendidas no varal.
Nasci com uma pinta na coxa
Cresci com poucas palavras na boca
Etecétera
E tal.

Nasci em agosto
Com as sete vidas que me cabem
E aceito o fardo de bom grado.
Porque nasci em agosto
Mas se precisar nascer de novo
Eu nasço.

domingo, 2 de agosto de 2009

Catar-se

Era um dia de meus cinco anos e eu era toda felicidade: percebi que podia enrolar a terceira perninha do meu M num caracol de vertigem, uma boniteza sem fim. Enrolava bem fininho até onde minha coordenação de criança pequena dava, mordendo a língua de lado com o esforço bom. Desse dia em diante nunca mais larguei do lápis. Desse dia em diante o tempo passou tanto que eu descobri um monte de coisas, virei gente adulta, consegui emprego, altura, amores. Mas ainda com o lápis na mão e aquela mesma felicidade, venho convidar aos meus amigos, todos vocês, para esse momento muito especial de minha vida: o lançamento do meu livrinho de poesia.




Os agradecimentos são muitos, e todos a quem os devo sabem bem do papel importantíssimo que tiveram nessa realização. Então deixo os beijos e abraços pra hora propícia, e fica aqui meu convite e meu sorriso.

sábado, 25 de julho de 2009

Modernista

a Drummond


Tinha a incerteza no meio do caminho.
No meio do caminho, a incerteza.
E, mais pro lado, a pedra.
Tinha a pedra.

Eu vi a incerteza e franzi o nariz de pena:
A incerteza era um bichinho.
E feio, como era feio, meu deus.
E roía, como roía, com uns incisivos
Que queriam crescer pra sempre
Pra além do seu tamanho
E ainda além.

Enquanto fiquei parada olhando, a incerteza roeu tudo o que podia:
Graveto, plástico, guimba, cacos
Até a pedra.
Ainda não satisfeita, ela chegou pra mim
E deu de roer meus sapatos
Roeu até sangrar um dedão.

Mandei-lhe a pedra no traseiro.

Tinha a pedra no meio do caminho.
E no meio do caminho tinha a incerteza.
Nunca me esquecerei desse acontecimento
Na vida de minhas retinas ainda frescas.


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Esse poeminha foi apresentado no Festival de Poesia Falada de Varginha, em junho de 2009, por meus amigos Luiz e Junim. É com muita alegria que divido o vídeo com vocês:



Valeu, meninos!



(tinha que ter uma foto dessa, rs)

domingo, 19 de julho de 2009

Mancha




Naquela manhã cinza o dia foi levando Rita pela mão com maus modos: o café havia dormido mais que ela, por isso saiu de casa mastigando a seco mesmo um biscoito de maisena. No ônibus, não havia lugar pra sentar, na bolsa, não havia trocado certinho, no cobrador, não havia paciência, e nem nas pessoas, educação. Rita se agarrava às suas coisas com uma mão, e com a outra se segurava como podia à barra de um assento, tentando ignorar a inconveniência ocasional das pessoas que, de passagem, se espremiam contra ela. No trabalho, teve dor de cabeça, meia hora a menos no almoço, um sem-número de telefonemas infrutíferos, hora extra.

E, além de tudo, aquela chuva que no fim do expediente, e no meio do caminho, veio encontrá-la sem sombrinha. Fechou os olhos sob a água torrencial, mas não buscou abrigo: preferiu seguir para casa em passos lentos, coração resignado, esperando que junto com a água lhe fossem escorrendo pelo corpo todos os litros de frustração.

Mas, quando finalmente abriu a porta de casa, cumprimentou-a o cheiro inconfundível de bolo acabado de sair do forno. A vida era boa novamente. Chegou à cozinha para encontrar a mãe e a irmã mais nova arrumando a mesa do café. De roupa trocada, toalha sobre os ombros e o mundo de volta aos eixos, sentou-se junto às duas. E lá se foram generosas fatias de bolo com leite recém fervido fumegando nas xícaras - eram três graças de sorrisos enlevados.

Rita pensou no cheiro do leite, no gosto do chocolate, na textura da toalha macia, no sagrado. Pousou olho fixo no bolo de chocolate, como nunca havia feito antes. Era um bolo simples de cobertura, comum nos cafés da tarde, mas cujo gosto supostamente conhecido os eventos do dia haviam feito o favor de acentuar. A moça sentia o cheiro de chocolate e salivava com a boca e com os olhos - que marejavam involuntariamente, e ela tinha que se dar ao trabalho de piscar muito para evitar que as lágrimas simplesmente vertessem contínuas por suas bochechas. O bolo parecia crescer diante dela, ganhando contornos cada vez mais nítidos.

Até que o inevitável aconteceu, a irmã sempre com aquela mania. Rita viu tudo em câmera lenta: a faca se aproximando, o ângulo enviesado, uma lasca grande de bolo se desprendendo irregular, com mais cobertura do que lhe cabia.

A pequena menina lambeu os dedos depois da normalidade do ato.

Rita continuou olhando o bolo, a mãe sorvia o leite folheando uma revista qualquer. E o ar ficou inerte como dizem que acontece logo antes de um grande estrondo de desastre. Deslizamento de lama, choque de trens, terremoto, onda gigante:

"Raio de menina egoísta! Por que não corta esse bolo do jeito certo, como todo mundo faz?"

Não houve resposta. A irmã, atônita, estendeu os braços junto ao corpo e baixou a cabeça, acometida por uma vergonha que desconhecia até então. A mãe, por sobre os óculos, repreendeu a filha mais velha com um olhar duro. E por vários segundos os resquícios da catástrofe pairaram no ar, agonizaram tremelicantes sobre o chão, até que Rita tentou um remendo:

"Não ligue pro que digo. Vem, termine seu bolo, tome lá mais um pouco de leite."

Mas não houve jeito. No ímpeto de servir a irmã, a moça deixou a leiteirinha cair, entornando tudo sobre a mesa. Nessa noite custou a dormir, com a culpa atravessada entre as pálpebras: arruinara uma tela de Rubens.

Choveu por mais dez noites e onze dias.

terça-feira, 7 de julho de 2009

Amor é Caça-Palavra



a Viviane Mosé


contrário de amor
não é ódio, rancor
não é raiva assassina
chilique, doença
dose de estricnina
nem mesmo indiferença.


contrário de amor
ao menos no meu idioma
eu circulei com vermelho
num dia de chuva:
ROMA.